Você sabia que o Escolástica Rosa foi a primeira escola profissionalizante do Brasil?
O grande prédio escolar defronte à praia guarda muitas histórias pouco conhecidas dos santistas e mesmo alguns segredos. Poucos sabem, por exemplo, que o Instituto Escolástica Rosa foi a primeira escola profissionalizante do Brasil, muitos não lembram que sua finalidade original era funcionar como orfanato, outros nem sabem que ali existe uma capela em homenagem a Dom Bosco – restaurada em 2003, depois de anos sem uso.
João Octavio, filho bastardo do Conselheiro Nébias com uma escrava, fundador homenageou sua mãe ao escolher o nome da escola

conta Waldemar Tavares Júnior
Foto: Rogério Soares,
Toda criança deve ter acesso à cultura, educação e ensino profissional. Esses são princípios básicos pregados pelas pessoas que acreditam na formação de cidadãos conscientes e preparados como um dos instrumentos de mudança da sociedade. Há mais de 100 anos, um santista chamado João Octavio dos Santos – filho bastardo do conselheiro Nébias, membro da corte de dom Pedro II, e de uma escrava – acreditava nesses princípios e destinou quase tudo que conquistou em seus 70 anos de vida para a realização de um sonho.
Ele não pôde ver, mas oito anos após a sua morte, o sonho se concretizou. Em 1º de janeiro de 1908, era inaugurado, em um imponente prédio na Praia da Aparecida, o Instituto Dona Escolástica Rosa, que recebeu o nome da mãe de João Octavio.
“Aquilo era fantástico. Quem passou por aquela escola nunca se esquecerá”. As palavras são do professor de educação física José Roberto da Silva, de 56 anos, que estudou por cinco anos na instituição: “Éramos uma família. Aquela escola era diferente”. Desde que José Roberto deixou o local, em 1968, o prédio sofreu inúmeras mudanças.
No início, a instituição era mantida pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia; apenas em 1931 o Estado assumiu a unidade
No início, todo o instituto era mantido pela Irmandade Santa Casa – seguindo a determinação que João Octavio deixou em testamento – e os alunos estudavam em regime de internato. O comerciante destinou 74 imóveis que faziam parte de sua invejável fortuna para que a irmandade pudesse garantir os recursos utilizados na manutenção do Escolástica.
Porém, em 1931, sem condições de continuar administrando a escola, a irmandade passou a responsabilidade pedagógica para o Estado e, três anos depois, começou a admitir alunos externos, inclusive meninas.
O Escolástica continuou sendo uma das melhores escolas da região. Aliás, o instituto, que oferecia cursos de marcenaria, fundição artística, alfaiataria, tipografia e escultura, entre outros, foi a primeira escola profissionalizante do País.
“Era uma escola maravilhosa. Uma referência em ensino profissionalizante”, lembra Carlos Pinto, ex-aluno e ex-professor do Escolástica, atualmente secretário de Cultura de Santos.
1.100 alunos estudarão na escola neste ano letivo
Quem passou pela escola em sua época áurea custou a acreditar no estado de abandono das oficinas onde funcionavam os cursos e a capela de Dom Bosco, construída em 1939. Mas a partir de 2003, quando a escola foi assumida p elo Centro Paula Souza e se transformou em escola técnica estadual, o cenário começou a mudar, ainda que lentamente.
Em 2003, a capela foi reformada pela Santa Casa e um dos galpões abandonados acaba de ser restaurado com verbas da Fundação Vitae. O local abrigará o laboratório do curso de Metalurgia. No último vestibular, o Escolástica Rosa foi uma das dez escolas técnicas mais procuradas do Estado e, neste ano, atenderá a 1.100 alunos.

Foto: reprodução, publicada com a matéria
Júlio Conceição tornou o sonho realidade
O comerciante João Octavio dos Santos morreu em 1900 e não viu o seu sonho concretizado. Mas, ao perceber que sua vida chegava ao fim (devido à arteriosclerose que sofria), deixou documentada a vontade de criar um instituto educacional. “(Era) vontade de João Octavio, conforme letras de seu testamento, criar um instituto destinado à educação intelectual e profissional de meninos pobres”, relatou Júlio Conceição (morto em 1933), amigo e testamenteiro do comerciante.
Foi Júlio Conceição quem geriu a herança deixada pelo amigo e conseguiu tornar real o seu sonho. Como prova de que cumpriu exatamente o desejo de João Octavio, sem se aproveitar da fortuna deixada por ele, Júlio Conceição elaborou uma minuciosa monografia no ano de fundação do Escolástica Rosa, onde descreve como administrou os bens deixados por João Octavio e onde investiu cada um dos réis da fortuna do comerciante.
O testamenteiro relata também as batalhas judiciais travadas contra parentes de João Octavio, cujo interesse era o valioso espólio deixado por ele, os altos impostos cobrados pela República e a luta para reavê-los, pois o dinheiro seria utilizado em uma causa nobre: a criação de um grande instituto educacional. Contudo, a burocracia e o desinteresse do Estado não tornaram possível a devolução do dinheiro.
“Sendo quase novidade entre nós esse meio educativo, são naturais os embaraços que tenho encontrado para combater velhas rotinas e a lamentável ignorância sobre o assunto”, afirmou Júlio Conceição em sua monografia.
O testamenteiro escreveu ainda que “gostaria que os poderes constituídos voltassem a sua atenção simpática para esse ramo de educação preventiva e mais salutar, sem dúvida, que as prisões correcionais”.
NÚMEROS
7 mil metros quadrados tem o terreno onde fica o Escolástica Rosa8 anos após a morte de João Octavio, foi inaugurada a escola


Foto: Prefeitura Municipal de Santos

Foto: Alberto Marques, publicada no jornal santista A Tribuna em 24 de fevereiro de 2006



