Uma guerra pelos canais santistas
No final do século XIX, Santos era uma cidade doente: epidemias, endemias e todo o vocabulário relativo a doenças contagiosas tinha vez nesta terra, por conta dos mosquitos que proliferavam nos extensos pântanos onde hoje fica a Zona Leste (Campo Grande, Macuco, Ponta da Praia, por exemplo) e se encarregavam de transmitir doenças trazidas pelos tripulantes dos inúmeros navios que aportavam no ainda não construído cais santista.

Imagem: Projetos e Relatórios – Saneamento de Santos (volume VII das Obras Completas de Saturnino de Brito, publicação da Imprensa Nacional/Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1943)
Sujeira, lixo, fezes de animais, cocheiras infectas, o clima quente e úmido, contribuíam para a insalubridade da região e para que, a cada instante, uma doença transmissível matasse até metade da população, ou afugentasse todos os que tivessem a oportunidade de sair dessa urbe. O Centro deixava de ser a zona de luxo, surgindo a tendência do deslocamento populacional para a Vila Nova e logo depois, para as praias, onde o clima era melhor.
Foi nessa época que começaram a ser delineados os projetos urbanísticos de Santos, destacando-se então o trabalho do engenheiro sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito. Mas, havia muitos interesses políticos e econômicos, o que gerou um célebre embate entre esse engenheiro e a Câmara Municipal, do qual dependia todo o futuro planejamento da Cidade. Saturnino venceu, mas não totalmente.
PLANO DE SATURNINO:
Ao todo, foram 9 os canais planejados por Saturnino de Brito, construídos ao longo de vários anos.
Canal 1 (entregue em 1907) – Av. Pinheiro Machado
Canal 2 (entregue em 1910) – Av. Bernardino de Campos
Canal 3 (entregue em 1923) – Av. Washington Luís
Canal 4 (entregue em 1911) – Av. Siqueira Campos
Canal 5 (entregue em 1927) – Av. almirante Cochrane
Canal 6 (entregue em 1917) – Av. Joaquim Montenegro
Canal 7 (entregue em 1911) – Av. Francisco Manoel (canal ao lado da Santa Casa)
Canal 8 (entregue em 1912) – Av. Moura Ribeiro (Marapé)
Canal 9 (entregue em 1911) – Av. Barão de Penedo (José Menino)
PLANO PODER PÚBLICO:
Além dos 9 planejados por Saturnino, a Prefeitura construiu outros canais na cidade, a maioria na Zona Noroeste.
Canal 10 (conhecido como 7) – Av. Gal. San Martin
Canal 11 (entre o 6 e o Porto) – Continuação da Av. Afonso Pena
Canal 12 – Rádio Clube – Av. Hugo Maia (Zona Noroeste)
Canal 13 – Santa Maria – Av. Alberto de Carvalho e Av. Roberto de Molina Cintra (Zona Noroeste)
Canal 14 – São Jorge – Av. Eleonor Roosevelt (Zona Noroeste)
Canal 15 – Jovino de Melo – Av. Jovino de Melo (Zona Noroeste)
A foto a seguir mostra o início das obras do canal 1, na Vila Mathias, com a construção de uma ponte para a passagem da Avenida Ana Costa:

Entre 1900 e 1903, começou a ser implantado o primeiro serviço de esgoto, ficando os engenheiros Saturnino de Brito e Miguel Presgrave encarregados das obras, com destaque para os canais de drenagem. As primeiras inaugurações (Canal 1, na foto acima, e o trecho da Rangel Pestana nas duas fotos a seguir) ocorreram a 27 de agosto de 1907, eliminando o Rio dos Soldados. Esse trecho seria depois coberto, para ampliar a via:

Ponte na Rua Braz Cubas sobre o canal da Avenida Rangel Pestana, feita em concreto armado, quando da inauguração em 27 de agosto de 1907 do trecho inicial do canal. O povo fazia fila para andar de barco pelo rio canalizado:

Esta foto abaixo foi feita quando da inauguração do primeiro canal, da então Rua Rangel Pestana, em 1907, sendo incluída num álbum editado por volta de 1910, com descrições em português e francês:

Uma das primeiras pontes em concreto sobre os canais santistas, cerca de 1907:

Ponte na Avenida Conselheiro Nébias, em concreto armado, em 1907 (note-se que é o mesmo local da imagem acima):




